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Luto, esperança e reconstrução são temas de encontro promovido pela Comunidade Evangélica de Lajeado

há 12 horas
4 min de leitura

Atualizado: há 21 minutos

Falar sobre a morte e sobre as perdas também significa falar sobre a vida que continua. Foi a partir dessa perspectiva que a Comunidade Evangélica de Confissão Luterana em Lajeado (Ieclb), por meio do Grupo de Diaconia, promoveu na noite desta quinta-feira (17) uma reflexão sobre luto, esperança e espiritualidade. O encontro ocorreu na Igreja de Cristo e integrou a programação do “Setembro Amarelo”.

 

Com o tema “Viver depois da perda: caminhos possíveis entre luto e Esperança”, a atividade foi conduzida pela psicóloga clínica e pastora licenciada Vera Weissheimer. A proposta foi ampliar o olhar sobre o luto, compreendendo-o não como uma doença, mas como um processo vivido a partir de perdas que possuem significado e vínculo para cada pessoa. “A gente entra em luto por causa de perdas significativas. Aquilo que a gente perde e não nos é significativo, se não temos apego ou vínculo com aquela pessoa, aquele trabalho ou aquela situação, não nos coloca necessariamente em luto”, explica Vera.

 

Segundo a psicóloga, o processo de luto exige tempo e pode envolver diferentes sentimentos e reações. Segundo ela, a esperança pode exercer um papel importante nesse caminho, desde que seja compreendida não como uma espera passiva, mas como uma força que impulsiona a pessoa para o futuro. “O luto não é uma doença. É um processo psíquico para nos curarmos daquele sofrimento, daquela perda”, destaca. “Quando a pessoa consegue construir uma relação com a esperança, não uma esperança de espera, mas uma esperança viva, que coloca a caminho, ela se torna um gancho para o futuro.”

 

Espiritualidade como fonte de sustentação

 

A relação entre espiritualidade e esperança também esteve entre os pontos abordados durante o encontro. A partir da experiência profissional na área de cuidados paliativos, Vera destaca ter observado como a dimensão espiritual pode contribuir para que pessoas enfrentem momentos de doença, perdas e até o processo de morrer.

 

Durante anos, a profissional atuou como capelã hospitalar em São Paulo, acompanhando pacientes em cuidados paliativos. Natural de Cruzeiro do Sul, atualmente, trabalha como psicóloga clínica em Florianópolis, Santa Catarina, e mantém sua formação pastoral. “Quem vivia uma espiritualidade, seja ela qual for, conseguia fazer o seu caminho pela doença ou até no seu processo de morrer de uma forma menos doída. Não que não tivesse dor, mas a pessoa conseguia encontrar forças”, relata.

 

De acordo com Vera, a espiritualidade está relacionada à busca de reconexão com algo que transcende o indivíduo e pode assumir diferentes formas. Ela cita, inclusive, uma frase dita por uma pessoa que acompanhou durante sua trajetória profissional: “Para mim não é o fim. É um ponto e vírgula. A frase vai continuar de alguma forma que eu não sei como”.

 

Na avaliação da psicóloga, essa perspectiva pode ajudar a sustentar a esperança diante daquilo que não pode ser controlado ou compreendido imediatamente. O luto também pode ser coletivo. A realidade do Vale do Taquari, marcada nos últimos anos por eventos climáticos extremos e enchentes, também foi relacionada ao tema.

 

Para Vera, experiências traumáticas vividas coletivamente podem deixar marcas que permanecem mesmo depois que a situação emergencial termina. “O Vale do Taquari viveu fases muito difíceis, com enchentes recorrentes. Existe o medo de uma próxima enchente e, junto com ele, uma ansiedade: ‘de novo eu vou ter perdas?’”, observa. Ela diferencia, nesse contexto, as manifestações relacionadas ao estresse pós-traumático dos processos de luto, que podem permanecer por períodos distintos e demandar atenção específica. “É preciso, de forma coletiva, olhar e dar uma atenção para o luto nas comunidades. Eu sempre digo: a cidade precisa olhar para isso. Há um luto coletivo nas cidades”, afirma.

 

A profissional também chama atenção para as chamadas perdas simbólicas, que nem sempre aparecem nas estatísticas, mas representam mudanças profundas na vida das pessoas. A perda da casa, do local de trabalho, de referências comunitárias ou até mesmo de espaços de convivência e espiritualidade pode provocar a sensação de rompimento com o mundo conhecido. “Eu conhecia o mundo, pensava que tinha um certo controle. De repente, perco o controle. Perco a casa, perco meu lugar de trabalho”, exemplifica.

 

Redes de apoio fazem parte da reconstrução

 

Outro aspecto destacado durante a palestra foi a importância da convivência e das redes de apoio. Vera salienta que o processo de enfrentamento das perdas não precisa, e muitas vezes não deve, ser percorrido de maneira isolada. “Precisamos também de um coletivo, de uma comunidade. Sozinhos e sozinhas, a jornada fica muito mais pesada”, ressalta.

 

A psicóloga relaciona esse suporte à própria experiência humana de buscar espaços que proporcionem acolhimento, pertencimento e fortalecimento. Família, comunidade, espiritualidade e relações de afeto podem constituir diferentes formas de sustentação ao longo do processo.

 

Ao abordar os cuidados paliativos, Vera também destacou a compreensão ampliada de saúde desenvolvida nessa área, que considera diferentes dimensões do sofrimento humano, incluindo as dores física, psicológica, social e espiritual. “A saúde não é só a saúde física”, enfatiza.

 

O encontro buscou contribuir para uma conversa mais aberta sobre o luto, reconhecendo a diversidade das experiências de perda e a necessidade de espaços comunitários para falar sobre aquilo que muitas vezes permanece silenciado. A atividade integrou as ações do Setembro Amarelo, período dedicado à valorização da vida, à prevenção do suicídio e à ampliação dos espaços de diálogo e cuidado em saúde mental.



 
 
 

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