top of page

Lideranças luteranas e católicas se reúnem em Culto Ecumênico da Reforma

há 7 minutos
4 min de leitura

A Comunidade Evangélica de Confissão Luterana em Lajeado realizou na manhã deste sábado (31) o Culto Ecumênico da Reforma 2026, na Igreja de Cristo. Com o tema “Cuidar da criação de Deus – fé que transforma, cuidado que permanece”, a celebração reuniu representantes de diferentes tradições cristãs em um momento de comunhão, reflexão e diálogo sobre a importância da fé na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e comprometida com a preservação da vida e do meio ambiente.


A celebração contou com a participação de dois convidados com trajetória na área da teologia: o pastor da Ieclb e teólogo Dr. Rudolf von Sinner e o padre e teólogo Dr. Érico João Hammes, que conduziram as reflexões a partir de diferentes perspectivas, abordando a Reforma Luterana de 1517 e sua relevância para os desafios da sociedade atual.


O pastor Henrique Arnold, da Comunidade Evangélica de Lajeado, afirma que a proposta para a edição de 2026 foi reunir dois importantes nomes da teologia, um da tradição luterana e outro da católica, para conduzir uma reflexão sobre a importância histórica da Reforma e sua atualidade, aproximando o tema do ano da Igreja: o cuidado com a criação de Deus. “A realização de um culto ecumênico na data da Reforma é uma oportunidade de reafirmar a unidade cristã e o testemunho de fé em um único Deus e Senhor”. Segundo ele, embora divergências do passado tenham provocado rupturas entre as igrejas, atualmente existem importantes movimentos de aproximação, especialmente entre católicos e luteranos. “Existem muito mais coisas que nos aproximam do que nos afastam”, destacou.


O Rudolf von Sinner, pastor da Ieclb e teólogo suíço-brasileiro, professor de Teologia Sistemática e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), fez a reflexão a partir do texto bíblico de Gálatas 5.1-11, com destaque para a passagem “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. Segundo ele, a liberdade é um dos temas centrais da Reforma e do pensamento de Martinho Lutero.


O teólogo explica que Lutero, em sua trajetória como monge agostiniano, buscava constantemente agradar a Deus, até compreender que a liberdade vem do Evangelho, por meio do perdão e da libertação do pecado oferecidos por Jesus Cristo. Essa liberdade permite deixar para trás as prisões do passado e viver uma fé que se manifesta em atitudes. Conforme Rudolf, não se trata de uma liberdade sem critérios, mas de uma liberdade responsável, que se expressa no amor ao próximo e na busca por uma justiça restaurativa, capaz de reconstruir relações e a convivência em sociedade.


Von Sinner também conta a importância do diálogo ecumênico. Suíço de origem, há 27 anos no Brasil, confessa que se sente honrado em participar da celebração em Lajeado. Ele lembra que as comemorações da Reforma já não são mais marcadas pela divisão entre católicos e luteranos, mas por uma caminhada de aproximação. Também cita o documento “Do Conflito à Comunhão”, que representa um importante marco nas relações entre as duas tradições cristãs. Para ele, o foco das celebrações deve estar no Evangelho compartilhado, e não nas antigas divergências.


Já o padre e teólogo Érico João Hammes, doutor em Teologia por Roma e ex-professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), desenvolveu a pregação a partir do texto de Isaías 11.1-9, que apresenta a imagem do broto que nasce do tronco e anuncia uma nova vida. A passagem, frequentemente associada ao período do Advento e do Natal, foi escolhida por sua relação com o tema do culto e com a criação.


Hammes destaca a imagem de um mundo reconciliado, representada pela convivência entre animais que, naturalmente, seriam predadores e presas. A passagem bíblica aponta para um horizonte de paz, no qual o lobo e o cordeiro, por exemplo, podem conviver sem violência. A reflexão também aborda a presença do Espírito e seus dons, em um contexto histórico de aproximadamente 700 anos antes de Cristo, quando o povo vivia um período de dificuldades políticas e sociais.


O padre salienta que este é o segundo ano consecutivo em que participa do Culto Ecumênico da Reforma em Lajeado. Ele lembra que a aproximação entre as igrejas ganhou força durante as celebrações da imigração alemã, quando foram realizadas diversas atividades conjuntas, incluindo pesquisas históricas. Integrante da comissão geral de diálogo ecumênico, Hammes ressalta a importância de as igrejas estarem juntas em momentos significativos, testemunhando a busca pela unidade cristã. Para ele, essa aproximação também representa um exemplo diante de um mundo marcado pela exclusão, estigmatização e perseguições.


A coordenadora geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), Edoarda Scherer, ressalta a importância de momentos como esse para fortalecer a convivência entre diferentes tradições religiosas. Para ela, a Reforma Luterana representa um processo permanente de reflexão e renovação da fé, que exige criticidade e coerência entre aquilo em que se acredita e o testemunho público apresentado à sociedade.

Edoarda parabeniza a Comunidade Evangélica de Lajeado pela iniciativa de promover a celebração ecumênica, criando um espaço de convivência, diálogo e respeito. Conforme ela, encontros como esse ajudam a sinalizar caminhos possíveis para a reconciliação e a unidade cristã nos dias atuais.


O Culto Ecumênico da Reforma 2026 reafirma que a memória da Reforma vai além do resgate histórico de 1517. A celebração se torna uma oportunidade de renovar compromissos, fortalecer os laços entre as igrejas e refletir sobre uma fé que se traduz em cuidado com o próximo, com a sociedade e com toda a criação de Deus.



 
 
 

Comentários


bottom of page