MEDITAÇÕES

A Palavra de Deus é a relíquia das relíquidas, a única, na verdade, que nós, cristãos, reconhecemos e temos. (MARTIN LUTERO)

O véu se rasgou

Este é um detalhe com muito significado, relatado no momento da morte de Jesus. Desde os tempos de Moisés e Arão, seu irmão, “havia uma cortina de tecido feito de linho fino e de fios de lã azul, púrpura e vermelha e bordada com figuras de querubins” (uma espécie de anjo em forma de criança). Essa cortina funcionava como um véu que separava a área onde o povo se reunia do Santo dos Santos, onde ficava a Arca da Aliança, contendo os Dez Mandamentos. Essa Arca representava a própria presença de Deus (Êxodo 26.31-33). Apenas o Sumo Sacerdote podia entrar naquele local sagrado, fazendo a mediação entre o povo e Deus. A finalidade era a expiação dos seus próprios pecados e os de todos os crentes, ou seja, a purificação, através do perdão, por uma falta cometida. Para isso, era feito um sacrifício.

 

A carta aos Hebreus é escrita para uma comunidade judaico-cristã. Ou seja, os seus membros conheciam muito bem essa tradição. E ninguém esquece o seu passado. Esses novos cristãos carregaram para dentro da  sua nova realidade de fé uma série de questões que aprenderam no judaísmo. Uma delas era: Jesus pode fazer essa mediação que o Sumo Sacerdote fazia? A Lei Mosaica previa que Deus chamaria os sacerdotes e o sumo sacerdote somente do meio dos descendentes de Arão e da tribo de Levi, encarregada dos cuidados do Templo. Jesus, porém, era descendente da tribo de Judá e não tinha parentesco com Arão. E agora? Como Jesus pode se enquadrar nessa tradição?

 

O autor da carta aos Hebreus lembra que, antes mesmo de Arão e os Levitas, Deus chamou um rei e sacerdote do Altíssimo, da cidade cananeia de Salém, cujo nome era Melquisedeque, que significa “rei da justiça”, “rei da paz” (Hebreus 7.1ss). Ele trouxe pão e vinho e abençoou Abrão, depois de uma peleia braba contra os sequestradores do seu sobrinho Ló. Abrão, em resposta, deu o dízimo de tudo que havia conquistado dos seus adversários (Gênesis 14.12ss). Esse é um exemplo de que Deus, nas suas ações, não se deixa prender por descendências e tradições. Ele age também fora desses limites.

 

Isso também é algo que devemos aprender, juntamente com a comunidade judaico-cristã dos Hebreus. Deus não age apenas nos limites do nosso conhecimento e da fé que temos. Ele vai além. Isso deveria nos tornar um pouco mais humildes e tolerantes.

 

De certa forma, o autor de Hebreus também vê Jesus como um Sumo Sacerdote diferente, que rompe com certas tradições. É verdade que ele não entra no Santo dos Santos, onde está a Arca da Aliança, mas entra no próprio céu, considerado a morada de Deus, no imaginário  da maioria das pessoas até hoje. O Credo Apostólico  registra com essas palavras: “Subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai, Todo Poderoso”.  Isso torna Jesus um sacerdote superior e para sempre. Foi obediente a Deus, mesmo tendo pedido, com forte clamor e lágrimas, que ele afastasse esse cálice amargo. Suas dores e sofrimentos o aperfeiçoaram de tal forma que “é capaz de condoer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele mesmo está rodeado de fraquezas” (5.2). Como mediador, ele é o sacerdote e o próprio cordeiro na nova aliança. Único sacrifício, sem necessidade de repetição, “que tira o pecado do mundo “.

Mas então, o que resta fazer agora? “Deixemo-nos levar para o que é perfeito” (6.1), escreve o autor da carta aos Hebreus. O véu não nos separa mais do acesso a Deus. Jesus rasgou esse véu: “Aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza da fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura” (10.22). Libertos de todo peso e de todo pecado, imitemos a obediência e perseverança de Cristo nas coisas de Deus, busquemos a paz e o amor fraternal.

 

Lutero, ao comentar Hebreus 5.6, escreve: “Se considero a Cristo um sacerdote, eu sei que ele nada faz senão estar no céu como nosso trono da graça, onde intercede por nós ininterruptamente perante o Pai, interferindo a nosso favor e dando bom testemunho. Esse é o melhor consolo que um homem pode alcançar, e não há mensagem mais doce para o coração.” (CF83, 20/03).

 

Pastor Luis Henrique Sievers


Lajeado/RS - Quaresma de 2021